sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Dinheiro carimbado

          Dizendo que estariam garantindo os recursos necessários para a melhoria de áreas específicas que se encontram sob responsabilidade do governo, os políticos, principalmente em época de eleições, apresentam e aprovam leis que destinam  porcentuais fixos da arrecadação para essas áreas.

          Um exemplo marcante disso foi a aprovação recente de 10% do PIB para a área da educação. Buscando ganhos eleitoreiros, os políticos, assim que a lei foi aprovada, apresentaram-se como defensores das causas públicas evidenciadas nas manifestações que se iniciaram em junho de 2013 e continuaram até pouco antes do início dos jogos da Copa (junho/2014). Atualmente vivemos um período de quietude, sem manifestações. Tive a oportunidade de observar, por muitas vezes, fotografias estampadas em jornais e revistas de jovens com cartazes ou faixas cobrando o aumento das verbas para educação, os tais 10% do PIB. Assim, a educação passaria a ter "padrão FIFA"!

          Agora, em campanha para reeleição, estes mesmos políticos adotaram como bandeira a votação favorável dessa lei. Muito provavelmente serão reeleitos devido ao forte poder apelativo da educação amparada por verba polpuda. Nos programas políticos da TV que tive oportunidade de assistir, os candidatos à reeleição garantiram que com tanta verba a educação nacional, sem a menor dúvida, terá melhoras expressivas nos próximos anos. Afinal, o governo passará seus investimentos em educação de 5,7% para 10% do PIB, o que significa, em dinheiro, de R$ 27 bilhões para R$ 48 bilhões.

          O incremento das verbas educacionais será gradativo - para não "quebrar" o governo! - até 2024, ano que chegaremos aos tais 10%.

Durante os últimos 20 anos os governos municipais, estaduais e federal têm aumentado os gastos com educação na expectativa de que aumentando os investimentos haveria, como consequência natural, um avanço na qualidade de ensino, o que não ocorreu. Ao contrário, a qualidade está decaindo avaliação após avaliação e os custos cada vez maiores. Observe os resultados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2013.

Em outros tempos, os legisladores aprovaram 5% do ICMS do Estado de São Paulo para as universidades públicas estaduais paulistas (USP, UNICAMP, UNESP).

No Congresso existem discussões para uma reserva de 1% das receitas (da União, Estados e Municípios) para programas de habitação popular. Também estão negociando uma verba de 7% para saúde. E vários outros projetos estão sendo propostos e discutidos.

Esse tipo de legislação gera uma receita chamada "receita vinculada" ou "dinheiro carimbado" porque tem destinação única (não pode ser usada para nada além daquilo para a qual a lei determina) e, no seu princípio, garante a verba necessária para essas instituições. Além disso, depois de aprovada não tem como voltar atrás e desfazer o que foi decidido.

Atualmente, 87% das verbas da União são "vinculadas", ou seja, gasto obrigado por lei com dinheiro cujo destino é predeterminado e que não pode, em hipótese alguma, ser usado para outro fim. Diga-se, de passagem, um porcentual elevadíssimo.

O problema que vejo nesse tipo de ação é que dinheiro garantido sem contraprestação e em grande quantidade sem boa administração estimulará o desperdício e não garante resultados positivos além de favorecer a corrupção.

Não é de agora que as universidades estaduais paulistas (USP, UNICAMP, UNESP) estão com grandes problemas de caixa por apresentarem despesas superiores ao que recebem pelos 5% do ICMS. Fazem greve e pressionam o governo paulista para elevar esse porcentual. Acontece que o Brasil está passando nos últimos três anos por uma queda acentuada na economia e, por consequência, redução do recolhimento do ICMS. Como os reajustes salariais dessas entidades foram superiores aos da inflação e o crescimento do ICMS bem abaixo dela o "dinheiro carimbado" para as universidades não cresceu na mesma proporção dos reajustes concedidos. Em alguns casos até encolheu! É claro que chegaria a condição que hoje se encontram, de insolvência.

O dinheiro carimbado só é bom desde que a arrecadação não diminua. E essa diminuição vem acontecendo em muitos municípios e vários estados acarretando sérios problemas administrativos.

Com a intenção de aumentar a arrecadação alguns municípios e estados passam a conceder incentivos fiscais para que indústrias se instalem em seus territórios.

As indústrias, nesse caso, ficam isentas de impostos e taxas. O estado e o município que concederam essa concessão aumentam suas arrecadações por meios indiretos. O índice de empregos aumenta por consequência da instalação da indústria e a massa salarial incrementa o consumo na região e, com o aumento das vendas do comércio, os governos passam a arrecadar mais e não resistem a "vincular verbas".
 
O estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, ofereceu tantas vantagens para a GM que ela instalou uma montadora no estado. Com isso, a arrecadação do município privilegiado aumentou muito porque os salários dos empregados da GM circulando pela cidade incrementou o comércio e venda de imóveis e o município melhorou seu atendimento ao munícipe. Tudo estava uma maravilha! Agora, com a queda da arrecadação pela diminuição assustadora de vendas de veículos, o município viu sua arrecadação cair pela metade e, por consequência, não consegue mais dar conta dos compromissos assumidos. E o prefeito vai até Brasília pedir ajuda federal. Episódios como este estão ficando cada vez mais frequentes no Brasil.

Na verdade, ENGANAM-SE AQUELES QUE LUTAM POR DINHEIRO CARIMBADO achando que com ele os problemas serão resolvidos!


 




quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O problema da água se chama Homo sapiens.

Diante da atual escassez de água temos, obrigatoriamente, que pensar demoradamente sobre esse assunto, refletindo profundamente e considerando o maior número possível de fatores e agentes que nos levaram a essa situação desesperadora.

As cidades, em sua imensa maioria, nasceram em margens de rios porque o rio representava fonte permanente de água, um bem essencial, e um meio acessível a todos para deslocamentos e transportes com o uso de embarcações. O custo do transporte simples em rios é nulo bastando, para tanto, um tronco de árvore trabalhado na confecção de uma canoa e uma vara para ser usada como remo. Com apenas esse tipo de utilização os rios se transformaram em bens a serem preservados com todo capricho.
 
Acontece, que os habitantes dessas povoações ribeirinhas, que se desenvolveram em grandes cidades, pouco ou nenhum valor deram a esse bem. Passaram a despejar nele os seus resíduos sólidos transformando-o em coletor de lixo. Era cômodo jogar o lixo no rio porque, levado pela correnteza, ele desaparecia da vista dando a impressão que o problema de destinação do lixo estava resolvido. Assim se sentiam conformados e confortados. O importante era se livrar do lixo! Ninguém, ou pouquíssimos, perguntaram "para onde está indo o lixo jogado no rio?".

Até hoje um número considerado de pessoas ainda continua usando o rio para se desvencilhar do lixo. Basta ver o Rio Tietê, o Tamanduateí, o Pinheiros com sacos de lixo boiando, poltronas, sofás, colchões e móveis velhos em suas margens além de quantidades incontáveis de garrafas pets flutuando e sacos plásticos.

A chuva que cai nas cidades também é muito bem vinda porque além de limpar o céu - as gotas da chuva carregam a poeira suspensa no ar para o chão - rega os jardins e áreas desocupadas e, ao originar enxurradas, carrega o lixo e a sujeira das ruas para os rios. Ou seja, a chuva lava a cidade levando embora a imundice e tudo aquilo que foi descartado nas calçadas, sarjetas e leito da rua. Até a poeira acumulada nos telhados!

Além disso, também os esgotos das cidades passaram a ser despejados nos rios. O leito do rio é a região mais baixa da cidade e, como o esgoto é aquoso flui por gravidade das regiões mais altas para as mais baixas através da rede de esgoto que termina em rios e córregos. No Brasil, estações de tratamento de esgoto ainda são exceções, raridades. Ou seja, continuamos despejando nos rios os esgotos in natura - do jeito que saem das residências -, poluindo-os assustadoramente.

Com lixo e esgoto o rio perdeu a nobreza, deixou de ser um bem a ser preservado, chegando a ser ruim para a cidade dada a proliferação de insetos, ratos nojentos, com sua água enegrecida e exalação constante de mau cheiro insuportável e, também, fonte de doenças.

Deixando de ser fonte de água consumível pelo homem, os rios das cidades, como fonte de água potável, foram abandonados e procurou-se água para consumo humano, em locais mais distantes, nos rios não poluídos que poderiam ser canalizados até as cidades. Para melhor proveito esses rios foram represados.

Com o aumento constante do consumo de água - as cidades estão crescendo - e a queda natural do índice de chuvas, a consequência inevitável é a falta d'água por momentos cada vez mais prolongados, tornando-se um problema grave no futuro pois, visto o desmatamento incontrolável e desmesurado que vem acontecendo, as chuvas se reduzirão ano após ano.

Um outro recurso de água potável é o lençol freático e o Brasil, nesse caso, é privilegiado porque possui nas profundezas do seu solo - principalmente na região de Cerrado - um depósito gigantesco conhecido como Aquífero Guarani, fonte das águas minerais que compramos.

Mas, o aquífero também está sendo comprometido! A irrigação das lavouras intensivas (agronegócio) é feita com água retirada do aquífero Guarani por meio de poços artesianos. E o consumo de água nessas áreas agrícolas é grandioso, de enormes proporções e, o resultado disso é o abaixamento do nível do aquífero. A subtração d'água do aquífero está se sucedendo em volume bem superior ao da recarga (reposição) que ocorre por infiltração das águas provenientes das chuvas no solo arenoso do Cerrado. Simplesmente porque as chuvas estão diminuindo.

Além disso, os lixões das cidades localizadas em regiões onde anteriormente era Cerrado (Goiânia, Brasília, Belo Horizonte, Uberlândia, Uberaba etc.), não receberam o tratamento adequado. Os chorumes oriundos desses lixões, material altamente poluente e contaminado, infiltram-se no solo arenoso e chegam a atingir o aquífero. Os agrotóxicos pulverizados nas lavouras são levados ao solo pela chuva e também se infiltram. Ou seja, estamos, na verdade, poluindo o aquífero!
Portanto, o problema não é a água, é o homem.

Perante tantos descasos o que se poderia fazer para resolver o problema, já sabendo que ele se agravará enormemente se nenhuma providência for tomada?

Sugiro:
1 - Preservar as áreas que abastecem o aquífero. Assim elevaríamos a reposição de água do aquífero Guarani.
2 - Já existe legislação a respeito mas nenhuma prefeitura tomou todas as precauções exigidas na construção de aterros sanitários. Deveria ser obrigatório cada município cuidar adequadamente do seu lixo - atualmente chamam de resíduo sólido.
3 - Programa de redução gradativa de poluição dos rios que passam pelas cidades. Londres e Paris conseguiram despoluir completamente seus rios. Despoluída, a água dos rios que passam por áreas urbanas poderia ser utilizada pelos cidadãos.
4 - Reaproveitar a água resultante do tratamento de esgoto em postos de gasolina (para lavar carros), irrigação de praças e água para descarga em sanitários. Processo conhecido por reuso.
5 - Educar o cidadão para que não jogue lixo ou qualquer outra coisa no rio e em nenhum outro lugar da rua ou da estrada porque esse material chegará ao rio carregado pela enxurrada das chuvas.
6 - Educar as pessoas para consumirem menos água. O cada cidadão europeu consome, em média, cerca de 110 litros de água por dia; o morador de São Paulo consome 205 litros por dia.
7 - Revisar o encanamento distribuidor de água nas cidades porque, por serem antigos, estão sujeito a muitos vazamentos, o que ocasiona perda expressiva de água.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A dignidade do mensageiro

Participei como ouvinte, debatedor e expositor de inúmeros congressos, palestras, encontros de divulgação de trabalhos científicos, principalmente na SBPC, e simpósios no período no qual fiz a pós graduação. Concluída a pós, com menor assiduidade, continuei a frequentar esses eventos. O último evento foi uma palestra dada por um membro da equipe de clonagem da Dolly.

Um fato marcante percebido na graduação, reforçado no período de pós graduação, durante as discussões calorosas que se estabeleciam em alguns daqueles eventos, é que no curso dos debates os participantes usavam argumentos tanto a favor como contra as ideias. Foi notório que os debatedores restringiam suas críticas aos pensamentos expostos pelo apresentador enaltecendo ou não o próprio pelos seus resultados alcançados nas pesquisas sem denegrir, de forma alguma, a pessoa do pesquisador, respeitando a sua individualidade, por pior que fossem as suas conclusões.

Dito de outra maneira, nunca ouvi críticas ou elogios dirigidos ao mensageiro (pesquisador) que comunica más ou boas notícias (conclusões dos pesquisadores).



Por outro lado, nos últimos 12 anos tenho notado declarações dos governantes desfazendo, desmerecendo e depreciando, até ofendendo, os seus críticos sem em momento algum argumentarem contra as críticas das quais são alvos, com a intenção de invalida-las e aniquila-las de modo incontestável e definitivamente, encerrando-se, assim, de modo decisivo o assunto.  Indo além, chegam até a sugerir legislação visando censurar a imprensa que, segundo eles, se atreve a divulgar o que chamam de disparates.

Assim procedendo, chamam de "pessimistas especializados em criar ambiente negativo", "torcida para o Brasil dar errado", "traidores da pátria", "só veem o lado negativo do governo", "oposição", "elite branca" os que se atreveram a dizer que a inflação está aumentando - e realmente está! -, que a conta de luz terá que sofrer um elevado reajuste e o atual governo não a reajusta porque é ano eleitoral e, caso reajustasse agora sofreria prejuízos na eleição; que o que está acontecendo com a conta de luz também ocorre com os combustíveis (gasolina e diesel); que a Petrobrás sofreu forte desvalorização sob seu comando; ou simplesmente vaiar a governante ... etc.

Eu mesmo fui impiedosamente chamado de "torcer contra o governo" quando escrevi que "as contas de luz ficariam muito mais baixas se o governo investisse na rede transmissora o que possibilitaria o aproveitamento de energia eólica do nordeste que estão paradas justamente por falta da rede transmissora. Elas têm a capacidade de gerar 1.300MW. Por causa disso estamos usando energia gerada por termoelétricas e que custa muito cara, cujo custo adicional ainda não foi transferido para a conta de luz de cada um. A Dilma preferiu baixar a tarifa no início de 2014 subsidiando as empresas geradoras em mais de R$ 12 bilhões, demonstrando pouca inteligência ou muita incompetência ou uso desmesurado do Estado para sua reeleição. Agora, o governo está novamente subsidiando as empresas geradoras em mais R$ 6 bilhões.
A partir do próximo ano, seja qual governo for, teremos que pagar essa conta, ou seja, caberá a nós arcar com os custos desse dispendioso subsídio com juros e tudo o mais, por um simples capricho da Dilma.


quarta-feira, 13 de março de 2013

Renan e Pastor Feliciano

Os Deputados e Senadores normalmente encontram-se ausentes de Brasília na segunda e na sexta-feira de cada semana, é claro, desde que não haja feriado.
De modo geral, debandam da Capital Federal na quinta-feira e só retornam, quando retornam, na terça-feira da semana seguinte. Por causa disso, o Congresso fica entregue às moscas nesses dias, com plenário completamente vazio.
A jornada de trabalho deles acaba se restringindo a pouco mais de dois dias por semana (quarta e quinta-feira).
Quando questionados sobre essa "mordomia" justificam, recorrentemente, dizendo que dirigem-se para seus redutos políticos nesses dias que se afastam, porque precisam manter contato com suas bases eleitorais. Sem esse contato não saberiam o que os seus eleitores pensam e, como representante do povo, precisam atualizar as suas informações básicas constantemente. Senão, não se reelejem!
Se isso é verdade, por que elegem Renan Calheiros como presidente do Senado e o Pastor Feliciano como presidente da Comissão de Direitos Humanos? Será que as suas bases não lhe informam o que pensam a respeito desses cidadãos? Caso escutassem os eleitores saberiam que esses políticos deveriam, no fundo, perderem os seus mandatos.
Será que durante as suas folgas nem ao menos lêem o noticiário de revistas, jornais e internet? Será que não acompanham noticiários de rádios e TVs?
Ou, na verdade, a ausência do Congresso é somente para passear!?!?!?!?

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Gandhi, o ingênuo!

Lendo sobre o que pensava Gandhi, líder carismático da Índia, fiquei surpreso com algumas revelações. Tão surpreso que decidi escrever sobre isso.
A Índia é um dos países que apresenta a maior desigualdade social. Ela ocupa o segundo lugar entre os países que têm os maiores números de bilionários do mundo. Por outro lado, cerca de 30% da população indiana vive em pobreza total e absoluta, com duas refeições a cada três dias. Parece que a desigualdade social indiana se deve a sua organização em castas.
As castas poderiam até ter desaparecido mas, o próprio Gandhi foi o grande defensor delas.
Gandhi acreditava, com muita fé, na doutrina em que a disciplina e autocontrole do corpo e do espírito é um caminho imprescindível em direção a Deus, doutrina essa conhecida por ascese.
Segundo essa doutrina, pregada por Gandhi, as pessoas passam por vária reencarnações, num ciclo de renascimento que chega ao fim e a alma se junta de Deus. É o caminho para a perfeição!
Com base em suas crenças explicou que as ferrovias espalhavam peste bubônica e aumentam a fome; hospitais propagam os pecados; o sexo é um obstáculo para se chegar a Deus; o camponês não precisa saber ler, pois o conhecimento das letras o tornaria descontente com sua sorte e cada um deve procurar sua felicidade. (essa última pregação de Gandhi é frontalmente contra o que pensamos no mundo ocidental)
Quanto ao sistema de castas, sempre defendeu e pregou a divisão da sociedade em quatro castas. Acreditando na transmigração e na reencarnação, afirmava que a natureza, sem nenhuma possibilidade de erro, faz as correções necessárias. Um indiano que pertença a casta brâmane que se comporta mal reencarna em divisão inferior, ou seja, em casta inferior: "Não há necessidade de ajustes nessa vida".
Quanta ingenuidade!

terça-feira, 10 de julho de 2012

O custo Lula

O último pacote econômico emergencial, o oitavo, anunciado pomposamente por Dilma Rousseff e Guido Mantega, repetindo o que fizeram nos sete anteriores (ampla divulgação e muito destaque na imprensa), é mais uma tentativa de conter a tendência à estagnação da economia brasileira. Esses pacotes têm mostrado, claramente, que ela e a sua equipe de ministros estão abrindo o baú e dele revivendo a era dos pacotes "milagrosos e de última hora" dos governos Sarney e Collor que também procederam da mesma forma. Quem estava lá, como eu (65 anos), viveu e pagou muito caro pelo fracasso de todos eles. A minha geração é testemunha disso.
E como fracassaram!
Eu vivi cada um deles e senti o quanto foi difícil e complicado conviver com essas verdadeiras “camisas de forças” econômicas que nos impuseram. Fomos reféns daquelas medidas! Os governos, com elas, interferiram de tal modo no nosso dinheiro que passamos a nos preocupar diariamente somente com nossas condições econômicas e financeiras não sobrando espaço para dar as devidas atenções que a educação, saúde, segurança, mobilidade e qualidade de vida requeriam. A economia passou a ser o foco principal e único do governo e, por indução, de todos nós, como se o Brasil fosse feito apenas e exclusivamente de dinheiro e nada mais. Qualquer coisa além do dinheiro foi literalmente desprezado (deixado para lá!). Os próprios governos só apresentaram pacotes econômicos desacompanhados de “pacotes de políticas sociais” para educação, saúde, infraestrutura, segurança, qualidade de vida etc.
Pessoas com mais de 40 anos de idade devem se recordar do “fiscal do Sarney” – lançamento do Cruzado, novo nome dado a nossa moeda em março de 1986 –, “do sequestro de dinheiro do Collor” – ministra Zélia Cardoso em março de 1990. Esses não foram os únicos daquela época, mas foram, sem dúvida, os que mais deixaram cicatrizes. Tivemos pacotes de “verão”, “cruzado novo” e outros que impuseram aos brasileiros sacrifícios gigantescos – ocorreram muitos suicídios em cada um deles –, e, infelizmente, deram em nada.
A repetição sucessiva desses pacotes atuais indica que Dilma está decididamente determinada em repetir os erros do passado ao fazer, com poucas diferenças, o replay. Será que ela e o ministro Mantega não aprenderam com o passado? Deveriam procurar estudar história porque já é sabido que conhecer a história serve, no mínimo, para não repetir os mesmos erros antigos. Ignorando a história, ou incompetentes para fazer algo diferente, repetem os mesmos erros. Como disse Heinstein, repetir os mesmos procedimentos achando que obterá resultados diferentes é insanidade.
Estamos no oitavo pacote porque os 7 primeiros não deram os resultados desejados, foram “voos de galinha”, isto é, surtiram efeitos momentâneos. Nenhum deles manteve os resultados positivos iniciais por mais de 4 meses e durante essa sucessão notou-se que os resultados se deterioraram à medida em que foram implantados. Esse, o oitavo, deve resultar em nada. Explicações pelos fracassos estão na imprensa, detalhadas pelos economistas. Enquanto isso o Brasil vai, aos poucos, decaindo, mês após mês, no PIB, a ponto de já dizerem que temos um PIBinho! E isso me assusta!
No início do ano, o ministro Mantega fez uma previsão de PIB de 4,5% para 2012. De lá para cá essa previsão vem sendo revista e, sempre, para baixo. Hoje está em 2,3%, apesar de todos os pacotes até agora.
A pergunta que não se cala é: por que, apesar das medidas tomadas pelo governo, o Brasil cresce cada vez menos?
A festa de Lula acabou. Ele encontrou um banquete pronto (e chamou de herança maldita!), usufruiu dele politicamente o mais que pôde, distribuindo benesses a torto e a direito, sem se preocupar com o futuro. Garantiu desse modo a própria popularidade e elegeu Dilma que recebeu como herança, além de ministros corruptos, o encargo de continuar a festa.
Embora não tivesse percebido, a festa acabou e nenhuma medida foi tomada para manter a mesma fartura.
Acontece que o processo econômico não obedece a vontade de Lula, pois tem as suas próprias leis e exigências. Esgotado o potencial contido nas medidas do governo anterior, a economia começou a ratear, quase parando. A partir daí Dilma adotou os pacotes.
Como se sabe, os partidos revolucionários não têm programa de governo porque acreditam que o mal da sociedade são os partidos de oposição e, como mal que representam, basta eliminá-los para se chegar a sociedade perfeita.
O PT adotou o programa do governo anterior que havia combatido ferozmente. Mas ficou nisso: esgotadas as possibilidades do programa herdado, não tem o que pôr no lugar, a não ser pacotes emergenciais.
Outra característica do governo petista, afora não ter programa, é valer-se da propaganda para ganhar a opinião pública. Esse é o recurso mais usado pelos governos populistas, já que o povo em geral, quer que o pacote dê resultado ou não, fica a notícia de que o governo está trabalhando, resolvendo os problemas. O PAC é exemplo disso.
Por que o governo não apresenta um plano como o REAL com propostas para resolução dos problemas atuais e futuros? Porque lhe falta competência para realizar projetos. E disso ele carece porque o preenchimento dos cargos executivos não é determinado por critério técnico, mas político.
Tudo isso é resultado do modo de operação de Lula no seu estilo "vamo-que-vamo" forçando obras a multiplicando metas - tudo a cargo de uma administração loteada entre os partidos políticos -, reduziu drasticamente a qualidade técnica da gestão e abriu espaço para os malfeitos. Esse é o custo Lula e começamos a pagar por esse custo.
O setor público no Brasil nunca foi lá essas coisas, mas loteado e politizado por Lula ficou pior.
Parte do que aqui escrevi tomei como base dados do IBGE, Wikipedia e artigos de Sardenber, C. A., Rodriguez R. V. e Gullar F.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Com tudo do nada!

Com a poibição determinada pela lei de se fumar em locais fechados e, além disso, também em abertos de determinados tipos de estabelecimentos, como escolas e hospitais, por exemplo, passamos a observar constantemente pessoas que saem dos prédios e permanecem nas calçadas em frente, fumando.
Já repararam no comportamento delas?
Pois bem, outro dia, da janela e distante, sem dar na vista, observei atentamente uma dessas, desde o momento que saiu do prédio já retirando o cigarro do maço até lançar longe, sobre o asfalto, a bituca daquele cigarro que havia acabado de se deliciar e, ao mesmo tempo, enquanto se virava para voltar, levantava a cabeça e expelia para cima o jato fumacento da última tragada, deixando, pairado no ar, o seu rastro que rapidamente se desvaneceu por entre os transeuntes.
O seu primeiro gesto, o de retirar o maço do bolso, já demonstra o apego extremo que mantém pelo vício, pois chegava à calçada com ele na mão.
Os gestos são precisos, numa das mãos o maço e na outra, o isqueiro. Demonstrando habilidade com coordenação perfeita pois coloca o cigarro na boca, acende o isqueiro e já traga profundamente. Gasta, para isso, décimos de segundos.
A fumaça, na primeira tragada, de tão intensa e profunda deve chegar até a alma dele. Ainda bem que não existe doença da alma que possa ser causada pelo tabaco!
Depois da primeira tragada, o fumante permanece quase que totalmente imobilizado. Em pé, com o olhar voltado para a rua, fixa seu olhar em não sei o que e assim permanece. Mais uma tragada; mais outra e continua na mesma. Chega outro colega na mesma condição e os dois permanecem próximos, mas muito distantes porque não se conversam e nem ao menos se entreolham. Cada um com o seu olhar distante, no infinito, perdido e talvez sem ver nada. Olha mas não enxerga coisa alguma pois não está ali para isso. Suga a fumaça e a expele em seguida sem nada ver!
Será que está pensando em algo? Acredito que não! Durante esse tempo toda a sua atenção e dedicação se restringe a barra branca cilindrica nicotínica em sua mão e principalmente nos lábios.
O semblante mostra relaxamento, os gestos inicialmente bruscos tornam-se aos poucos serenos, amainam.
O movimento de lançar a bituca para longe é rápido, rude e dar as costas para o local onde ela caiu ao iniciar o caminho de volta demonstra, acredito eu, um certo arrependimento do que fez. Assim feito, rapidamente abandona o local caminhando em direção à porta de onde saiu. Desaparece. Entra no prédio e a calçada vazia fica ali, aguardando-o para nova sessão desse ritual tabagistico.
Perguntei a um colega fumante sobre o que pensa enquanto fuma na condição de isolado de todos e desligado do mundo!
-Nada!